Um Pedaço do Rio Fora
dos Roteiros Oficiais
...mas nem por isso menos carioca.
"Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu
valor
Eu fui a Penha, fui pedir a padroeira para me
ajudar”
Ao contrário do que diz a música,
eu fui à Penha não para pedir mas, para agradecer. Subi os degraus sob um sol
escaldante ( às 10h30.) e cheguei à Igreja banhado de suor e exausto. Lá
chegando fiz o que é de praxe em uma igreja e depois desci as escadarias. Como ninguém é de
ferro, parei numa lanchonete, onde os funcionários e gerente me conhecem e fiz
um lanche,. Conversei, brinquei com eles e depois passei no supermercado para
fazer algumas compras básicas. Compras feitas, entrei no ônibus que me deixaria em casa. Como houve
mudanças com a implantação do BRT, esqueci que o ponto onde estava, passam
ônibus com dois destinos: o ponto final e a Tijuca. O que deveria ter pego. Mas
como podem concluir, peguei o que ia para o final. Depois de algum tempo,
percebi que ele estava se dirigindo à
Vila Cruzeiro, reduto do Adriano, não o romano mas o daqui mesmo e, nem por
isso, menos imperador. Resolvi relaxar e
ir até o final para pegar o de volta. Só que o ônibus começou a entrar em ruas
que não conhecia e, depois de algum tempo, me dei conta que estava no interior
da Vila. Ao perceber um ônibus em uma das esquinas com o letreiro Tijuca, resolvi
saltar é me dirigi a tal rua. Ao chegar,
o ônibus já havia saído. No local onde parei, embaixo de uma árvore, pois já era
quase uma hora da tarde, havia um muro em frente com alguns pneus e lixo em
combustão. Não pude deixar de pensar, diante daquela paisagem, no “microondas”.
Percebendo um senhor sentado na rua, perguntei se ali era ponto de ônibus e ele afirmou que sim.
Perguntei, ainda, onde encontraria um bar para tomar uma água. Depois de
agradecer, me dirigi ao bar que o senhor havia indicado, entrei, cumprimentei a todos e pedi
uma coca cola. O dono educadamente
sugeriu que eu sentasse, o que fiz. Paguei
e agradeci com o pedido gentil de volte sempre. Voltei ao ponto e com as bolsas nas mãos fiquei aguardando o ônibus.
Pela rua passavam motos pilotadas por rapazes sem camisas, outras com agregados
na garupa (namoradas, mulheres e filhos, acredito eu), vários mototaxistas com
seus respectivos passageiros, sem contar o número de carros de luxo que desfilavam
a minha frente. O foguinho (não confundi com o personagem de uma novela global)
a toda hora emitia um estalido que
lembrava tiro e me deixava tenso. Olhava a imensidão do morro em volta envolto
por “”nuvens” passageiras que com o
vento se vai”. Como todos estão cansados de saber, as nuvens não são passageiras e nem o vento as leva”. Estão lá e acredito que continuarão por muito
tempo, amedrontando gente que como eu ousa em enveredar pelas ruas do bairro,
ou fazendo a felicidade de outros. Finalmente, o ônibus veio e eu pude chegar
ao meu destino final: minha casa. Após o
que vivenciei , não pude deixar de pensar em Regina Casé e sua obsessão pela
periferia. Tenho que admitir que ela está certa. Ela é ameaçadora, estranha.
instigante, solidária, simples sem ser
simplória, com uma variedade de tipos e estilos impressionantes. Nela não há
espaço para o tédio. Tudo é muito elétrico e mutante. Não é por acaso que ela
toma a cada momento a fatia que lhe cabe por direito na cultura da cidade e, por extensão, do
país. É o espaço (personagens) segregado que Lima Barreto e João do Rio
transformaram em material de suas obras, se firmando agora pela voz de seus próprios personagens.
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